quinta-feira, 25 de junho de 2020

Capítulo 06 - Paralelismo, Pontuação e Sintaxe de Colocação

Capítulo 06. Paralelismo, Pontuação e Sintaxe de Colocação

1. Paralelismo

Leia este trecho de um dos sermões de Padre Antônio Vieira:
Compara Cristo o pregar ao semear, porque o semear é uma arte que tem mais da natureza que de arte. Nas outras artes tudo é arte: na música tudo se faz por compasso, na arquitetura tudo se faz por regra, na aritmética tudo se faz por conta, na geometria tudo se faz por medida.
Observe que o segmento destacado apresenta uma mesma estrutura léxico-sintática, a saber:

A esse tipo de preocupação por parte do escritor dá-se o nome de paralelismo.


1.1. Paralelismo Sintático

O paralelismo sintático é o recurso que cria uma construção simétrica. É um recurso da Estilística, parte da gramática que estuda os recursos de expressividade de um texto. Essas estruturas repetidas deixam o texto mais enfático.

Observe outro exemplo de Vieira:

É claro que o uso excessivo desse recurso pode tornar o texto muito artificial. Entretanto, caso não se respeite esse princípio, o período será deselegante. Resumindo: a idéias similares devem corresponder formas verbais similares. As estruturas devem estar simétricas e conexas, e não assimétricas.
Observe:



A construção adequada seria:


Veja outro exemplo:



Há dois motivos para a sua falta. Seria aconselhável que fossem apresentados de maneira simétrica, ou seja:






Rita gosta de nadar e de jogos de vôlei de praia.

Outro exemplo:


Veja esta questão de Geografia no vestibular da UFRGS:
A geografia da população tem por objetivo estudar os aspectos demográficos de distribuição e mobilidade da população em nível mundial e regional, bem como o crescimento demográfico ao longo da história da humanidade. Neste particular, entre as causas principais das grandes mortalidades do passado estão as doenças:
a) epidêmicas, endêmicas e guerras.
b) infecciosas, o tabagismo e guerras.
c) degenerativas, endêmicas e guerras.
d) degenerativas, infecciosas e endêmicas.
e) degenerativas, infecciosas e o tabagismo.
Veja que as alternativas foram muito mal elaboradas: em ac e e, temos dois adjetivos e um substantivo. Em B, dois substantivos e um adjetivo.


1.2. Paralelismo Semântico

A ausência de paralelismo semântico pode vir a se constituir um recurso extremamente expressivo, já que chama a atenção do leitor pelo estranhamento diante de tal construção. Observe a seguinte frase de Machado de Assis na obra Memória Póstumas de Brás Cubas:


Ora, um dos princípios do uso da conjunção e é que essa categoria gramatical serve para relacionar termos equivalentes. Ao escrever que Marcela o amou por quinze dias e..., o leitor espera que pela seqüência lógica venha um complemento relacionado à idéia de tempo (doze horas, por exemplo). Ao romper com a seqüência esperada, Machado de Assis criou em efeito que realçou sua construção. Veja outro exemplo machadiano na mesma obra:





2. Pontuação


Denominam-se sinais de pontuação alguns sinais gráficos que reconstituem aproximadamente certos recursos rítmicos e melódicos da língua.
Há os sinais cuja função primordial (e não apenas) é marcar as pausas. Tal é o caso da vírgula, do ponto e do ponto-e-vírgula. Além destes, existem os que fundamentalmente são marcadores de entoação, grupo em que se inserem os dois-pontos, o ponto de interrogação, o ponto de exclamação, as reti-cências, as aspas, os parênteses e o travessão.
Ressalte-se que essa distinção proposta pela tradição gramatical é bastante discutível, já que de modo geral os sinais de pontuação marcam concomi-tantemente entoação e pausa.


2.1. Vírgula

Marcadora de pausa de curta duração, a vírgula é empregada não somente dentro de uma oração, mas também entre orações de um período composto.

I. Vírgula no Interior da Oração
(ou de Frase Nominal)
Usa-se a vírgula para:
• separar termos coordenados assindeticamente:
• separar termos coordenados pelas conjunções eou e nem, quando ocorre uma figura de linguagem denominada polissíndeto, ou seja, quando as conjunções vêm repetidas enfaticamente em uma enumeração:
• separar aposto explicativo ou comparativo. Atenção - o aposto especificativo não é separado por vírgula:
• separar vocativo, inclusive o vocativo de ofícios e cartas comerciais:
• separar adjunto adverbial anteposto ou intercalado. Quando o adjunto adverbial é apenas um advérbio, não se usa a vírgula, exceto em caso de ênfase:
• separar expressões explicativas, retificadoras, continuativas, conclusivas ou enfáticas:
• separar termos repetidos, objetos diretos e indiretos pleonásticos e indicar anacolutos:
          Estávamos muito, muito cansados.
          Nada, nada, e você estará rico!

          Queria muito pouco, muito pouco mesmo.





• separar local e data, número da rua em endereços e integrantes de dispositivos de lei:


• indicar supressão de termo (elipse e zeug-ma):


• separar conjunções coordenativas adversativas conclusivas:



II. Vírgula entre Orações em um Período Composto
Usa-se vírgula para
• separar orações coordenadas (exceto as conectadas por e):



 separar orações introduzidas por e consti-tuinte de polissíndeto:


• separar oração introduzida por e com sujeito diferente do da oração anterior:

• separar oração introduzida por e denotativa de adversidade ou conseqüência:

• separar oração subordinada adjetiva expli-cativa. As orações adjetivas restritivas só se separam por vírgula se forem muito longas ou se o verbo da oração principal estiver lado a lado:


• separar oração subordinada adverbial des-locada:

• separar orações intercaladas:

III. Vírgula Proibida
Não se deve empregar vírgula:
• entre o sujeito e seu verbo, por maior que seja a extensão do primeiro. Quando o sujeito é oracional, permite-se o uso de vírgula, como no slogan do SBT - ''quem procura, acha aqui'':

• entre o verbo e seu objeto (direto ou indireto), entre o verbo de ligação e o predicativo, entre a locução verbal de voz passiva e o agente da passiva. Mas, a vírgula é facultativa entre o complemento de um verbo e logo após um adjunto adverbial:

• entre nome e adjunto adnominal:


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• entre nome e complemento nominal:

• entre oração principal e oração subordinada substantiva (exceto a apositiva, que admite vírgula ou dois-pontos):

• entre oração principal e o início da oração subor-dinada adjetiva restritiva:

(Observe que é correto o emprego da vírgula após a oração restritiva.)

2.2. Ponto
Emprega-se o ponto para indicar a pausa máxima em qualquer tipo de período, exceto em interroga-ções diretas e sentenças exclamativas, e também nas abreviaturas (Sra., ex., obs.). No primeiro caso, chama-se ponto final. No segundo, ponto abreviativo:

2.3. Ponto de Interrogação
Emprega-se o ponto de interrogação no final de interrogações diretas. Nas interrogações indiretas, usa-se o ponto final:

2.4. Ponto de Exclamação
Emprega-se o ponto de exclamação posposto a enunciados exclamativos, optativosinterjeiçõesimperativos, vocativos:


2.5. Ponto-e-vírgula

Emprega-se o ponto-e-vírgula para marcar uma pausa mais longa que a vírgula e mais breve que o ponto. De modo geral, usa-se em períodos compostos por coordenação, nos quais ao menos uma delas já contenha vírgula ou vírgulas, ou em períodos em que as coordenadas sejam relativamente extensas:

2.6. Dois-pontos
Empregam-se os dois-pontos seja para introduzir discurso direto, seja para iniciar segmento explicativoesclarecedor. Usa-se também em exemplos, notas, observações, na fala do personagem, no vocativo de cartas e comunicações e em orações apositivas.

2.7. Reticências
Empregam-se as reticências para marcar a suspensão ou interrupção do pensamento ou a continuidade de uma ação ou fato, representar, na escrita, hesitações comuns na fala e realçar uma palavra ou expressão:

2.8. Travessão
Emprega-se o travessão (simples ou duplo) seja como indicador da troca de interlocutor no discurso direto, seja como substituto das vírgulas ou dos parênteses no isolamento de termos intercalados:





2.9. Parênteses

Empregam-se os parênteses para isolar observações, explicações etc. Os colchetes têm emprego semelhante ao dos parênteses, mas seu uso se restringe a textos científicos, filosóficos ou didáticos. Seu uso mais comum se configura nos dicionários, para fazer referência à etimologia da palavra:


2.10. Aspas

Empregam-se as aspas para isolar citação:



Usam-se também para isolar arcaísmos, neologismos, estrangeirismos, expressões populares, desvios gramaticais, gírias etc.:





3. Sintaxe de Colocação


Você está agora entrando num domínio da Sintaxe que, inequivocamente, é um dos que maiores divergências apresentam, não só entre os gramáticos mais conservadores e os mais abertos às constantes mudanças da língua efetivamente usada pelos falantes, como também entre as tendências lusitanas e as brasileiras de normatização do idioma. A colocação pronominal atesta, sobretudo, o enorme fosso entre as prescrições gramatiqueiras (de aquém e de além-Atlântico) e o emprego efetivo do pronome oblíquo átono na língua.
A par de algumas normas de cunho generalizante, a que, em determinados contextos e circunstâncias, obedecem setores escolarizados dos falantes, ocorre uma enorme diversidade na colocação desse pronome, seja em virtude da variedade de falares nos países lusófonos – em especial entre as variantes americanas e européias do português –, seja em virtude do quase-abismo que geralmente há entre seu uso pelas elites e pela maioria lusófona.
Dessa multiplicidade, sopro vitalizador do idioma, decorre a necessidade de fazer a distinção entre os casos "obrigatórios", os efetivos e as ocorrências facultativas ditadas por questões de estilo, eufonia, ênfase e, é claro, pela eficácia comunicativa.
• Variações dos pronomes o, a, os, as
As modalidades lo, la, los, las podem ser enclíticas ou mesoclíticas. Ocorrem associadas às formas verbais terminadas em -r-s ou -z:



As modalidades no, na, nos, nas, sempre enclíticas, colocam-se após as formas verbais com ditongo nasal final (-ão, -õe(m), -am, -em):
•  Contrações e combinações de oblíquos átonos
Já literárias e arcaicas, embora corretas, são as contrações e combinações entre os átonos me, te, lhe(s), nos, vos (objetos indiretos) com os objetos diretos o, a, os, as (pessoais ou demonstrativos):



O pronome se nunca se associa, na mesma oração, a o, a, os, as, mas pode, ainda que raramente, ligar-se a me, te, lhe(s), nos vos. Traduz-se indevidamente a construção francesa on le por se o, se a, se os ou se as:


3.1. Colocação Pronominal num Único Verbo

I. Ênclise
Pode-se afirmar, grosso modo, que os pronomes átonos normalmente se colocam em ênclise, visto que em geral exercem o papel de objeto. Não se inicia oração, período, texto ou redação com pronome oblíquo átono, exceto sob licença poética ou quando se pretende reproduzir a fala coloquial. Pode-se iniciar frase com pronome pessoal reto ou quando o se não é pronome, mas conjunção. Não se coloca pronome oblíquo átono depois de vírgula ou qualquer pausa:





Observe que, em algumas dessas situações, a colocação pronominal conflita radicalmente com a língua falada no Brasil:


II. Próclise
Em termos gerais, o pronome átono antepõe-se ao verbo em:
• sentenças exclamativas optativas (que expri-mem desejo, vontade):


• sentenças interrogativas diretas e indiretas:

• sentenças negativas iniciadas por palavras ou expressões negativas:

• orações subordinadas desenvolvidas iniciadas por pronomes relativos e conjunções subordinativas integrantes ou adverbiais. Nas orações reduzidas, essa regra não se aplica, pois as orações são ligadas por preposição, não por conectivos:


• orações coordenadas alternativas e aditivas:

• orações com inversão sintática:

• orações com verbo no gerúndio precedido da preposição em:

• orações com verbo antecedido de pronome não-pessoal (demonstrativo, indefinido, interrogativo e relativo). Com pronomes pessoais retos, possessivos e de tratamento, substantivos, numerais e conjunções coordenativas, pode-se usar tanto a próclise quanto a ênclise. Se o verbo estiver no futuro do presente ou do pretérito, a ênclise a ele é substituída pela mesóclise. Com verbos monossilábicos ou proparoxítonos, a eufonia ordena que se use a próclise:

• orações com o numeral ambos (ambas) e advérbios, palavras denotativaslocuções adverbiais sem pausa em relação ao verbo:

III. Mesóclise
mesóclise ocorre quando a forma verbal é de futuro do presente ou futuro do pretérito do modo indicativo, desde que não haja fator de próclise na oração. No futuro do subjuntivo, por haver um pronome ou uma conjunção subordinada, usa-se a próclise:






Mas:

Atenção especial merecem as formas de futuro do indicativo dos verbos trazer, dizer e fazer quando a eles se ligam pronomes mesoclíticos. Observe:


Constituem, pois, "erros" de colocação construções como "trazê-lo-ei", "trazê-lo-iam", "dizê-lo-ia", "fazê-los-ão", "fazê-las-íamos" etc.


3.2. Colocação Pronominal em Locuções Verbais

Para a colocação dos pronomes átonos em locuções verbais e tempos compostos valem, em princípio, as mesmas regras mencionadas, ressalvadas algumas situações especiais.

I. Verbo Principal no Infinitivo
Quando não há situação de próclise, ocorre a ênclise (ou mesóclise) ao verbo auxiliar ou a ênclise ao principal:


Havendo algum fator de próclise dentre os mencio-nados no item b, somente o verbo auxiliar tem pronome proclítico:



Na língua usada no Brasil, contudo, há tendência acentuada à próclise ao verbo principal:




II. Verbo Principal no Gerúndio

Não havendo situação alguma motivadora de próclise, ocorre a ênclise (ou mesóclise) ao verbo auxiliar ou a ênclise ao principal:



Quando há fator de próclise, ela ocorre somente ao verbo auxiliar:





Também aqui a distância entre as prescrições gra-maticais e a linguagem oral brasileira é considerável:




III. Verbo Principal no Particípio
O particípio é uma forma nominal que rejeita a adjunção de pronomes átonos. Desse modo, a colo-cação pronominal ocorre junto ao verbo auxiliar, de acordo com as regras citadas no item I:



Portanto, são consideradas "não-recomendáveis" ou infratoras da norma culta construções com próclise ou ênclise ao particípio:



Observe que a próclise ao particípio é a colocação mais freqüente na linguagem oral e escrita no português do Brasil.
Observações finais
As gramáticas tradicionais ainda consideram "erradas" colocações de longo uso no português falado no Brasil:
• Pronome átono no início de oração, exceto na reprodução da fala coloquial ou sob licença poética:
Me empresta o caderno. Te amo. Me liga.

• Pronome proclítico em relação ao principal, preferindo-se o pronome enclítico ao verbo auxiliar:


3.3. Pronome e Concordância

• VTI, VI ou VL na 3ª p. singular se (índ. ind. sujeito):



• VTD ou VTDI no sing. ou plural + se (pronome apassivador):



• Verbo no singular ou plural com sujeito um dos que:



• Pronome de tratamento: verbo na 3ª p. singular ou do plural:



• 1ª pessoa > 2ª pessoa > 3ª pessoa



• Verbo no singular com aposto resumitivo:
   Homens, pastos, plantações, tudo morreu.



Algum de nós chegará primeiro.
Alguns de nós chegarão (chegaremos) primeiro.

• Um e outro + verbo no singular ou plural

   Um e outro dirigiu-se (dirigiram-se) ao caixa.





• Que quem
• Que: verbo concorda com antecedente.
• Quem: verbo concorda com antecedente (por razões de ênfase) ou fica na 3ª p. singular:



• Pronome reto prevalece sobre quaisquer palavras



• Tudo, o, isto, isso, aquilo: verbo ser concorda com predicativo



 Outros casos










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