quarta-feira, 24 de junho de 2020

Capítulo 02 - Estrutura e Formação de Palavras (Extras)


III. Abreviatura

Muitas vezes, a redução vocabular resulta em palavras que, desprovidas de autonomia fonética, se tornam símbolos gráficos do vocábulo que representam. São as abreviaturas.
Comparem-se, por exemplo, Sr. e Ltda. com pneu ou moto. Enquanto estas são dotadas de soberania fonossemântica, aquelas apenas simbolizam as palavras senhor e limitada.




IV. Sigla (ou siglonimização)

BIG BANG BANG – Adão Iturrusgarai

A utilidade prática das siglas é óbvia: conferem concisão e rapidez ao discurso. Imagine se, na tira acima, TPM fosse substituída por tensão pré-menstrual. Esta sigla não deve ser confundida com a sigla inglesa homônima TPM (Total Productive Maintenance), que, em português, foi adaptada para MPT (Manutenção Produtiva Total).
sigla constitui-se da combinação de duas ou mais palavras, em geral representadas por iniciais (BEG Banco do Estado de Goiás) ou por iniciais e segmentos (BanespaBanco do Estado de São Paulo). Pode   também conter uma palavra inteira, como em Unibanco   ou Banestado (Banco do Estado do Paraná). Algumas já são dicionarizadas e consideradas como palavras, como aids, ibope, jipe, radar, aids, óvni. Outros exemplos:

Observe que várias siglas atuam como palavras geradoras de derivadas e compostas:
aidético, celetista (de CLT), laserterapia, pedetista, pefelista, peemedemista, pessedebista, petista, ufólogo, uspiano.
Vocábulos há que guardam características híbridas de sigla e abreviatura. É o caso, por exemplo, de etc. (et coetera) e SP (São Paulo). São siglas, pois na sua formação há mais de um vocábulo, mas não são dotadas de autonomia fonética. São também siglonimizações de abreviaturas:

V. Palavra-valise
Veja

Também chamada de palavra-valise, é o resultado da junção de duas ou mais palavras (uma perdendo a parte final e outra perdendo a parte inicial) quando ao menos uma delas sofre supressão de fonemas.Atletiba (jogo entre o Atlético Paranaense e o Coritiba), Bavi (Bahia e Vitória), bebemorar (beber e comemorar), Belíndia (Bélgica e Índia, criação de Edmar Bacha), brasiguaio (brasileiro e paraguaio), cairoca (cairota e carioca, autodefinição de Leon Eliachar), carreata (carro e passeata), cantatriz (cantora e atriz), Comefogo (Comercial e Botafogo de Ribeirão Preto), copoanheiro, elefantástico, fraternura (criações de Guimarães Rosa)entretendendo (ter, entreter, tender, entender – criação de João Cabral de Melo Neto), estagflação (estagnação e inflação), Faustuxa (Fausto Silva + Xuxa), futsal (futebol de salão), Flaflu (Flamengo e Fluminense), Grenal (Grêmio e Internacional de Porto Alegre), noitícia (noite, notícia – criação de Carlos Drummond de Andrade), proesia (prosa, poesia – criação de Décio Pignatari), Petrossauro, Eletrossauro (Petrobras, Eletrobras e dinossauro – criações de Roberto Campos), perhappiness, perter, diversonagens suspersas (diversas personagens suspensas dispersas, criações de Paulo Leminski)portinglês (português e inglês), portunhol (português e espanhol),
Sansão (Santos e São Paulo), showmício (show e comício), tomarte (tomarte, Marte, arte – criação de Murilo Mendes) etc. Algumas já conhecidas são informática (fusão de informação com automática), infomercial (fusão de informação com comercial), nutracêutico (fusão de nutriente com farmacêutico) e bit (fusão de binary digit), flexitariano (fusão de flexível com vegetariano).


As onomatopéias têm por fim a imitação de sons, vozes de animais, ruídos de pessoas, coisas ou fenômenos naturais. Trata-se, em verdade, de tentativas de imitação, já que tanto o aparelho fonador quanto o sistema alfabético não dispõem de recursos fonológicos ou gráficos capazes de reproduzir todos os sons. Tomem-se, por exemplo, plim-plim e cocoricó: são meramente convenções socialmente introjetadas, que não reproduzem com fidelidade o som metálico das vinhetas de intervalo para filmes e seriados da TV Globo e os sons emitidos por galináceos.
Prova dessa convenção cultural é o fato de que as representações humanas dos ruídos dos animais distinguem-se de um idioma para outro, ainda que uma espécie animal produza basicamente o mesmo som em qualquer parte do mundo. Observe a lista a seguir:


onomatopéia gera basicamente substantivos, interjeições e verbos chamados de onomatopaicos. Alguns exemplos:

· Substantivos: bangue-bangue, bem-te-vi, bláblá, cega-rega, chinfrim, pingue-pongue, plim-plim, quiquiriqui, pingue-pongue, pife-pafe, reco-reco, teco-teco, tique-taque, trique-traque, zunzum, zunzunzum etc.

Interjeições: catapimba! pá! poft! pum! pumba! zás! zape! etc.

Verbos: assobiar, sussurrar, zumbir, zunir, zunzunar, trissar, gritar, tinir, palrar, grasnar, piar, arruar, bramar, mugir, balir, blaterar, ganir, ladrar, rosnar, uivar, ulular, relinchar, gloterar, crocitar, pipilar, cacarejar, ronronar, cuinchar, coaxar, gruir, zurrar, rugir, urrar etc.

VII. Neologismo
Observe como os vocábulos atendimentocampeão e praias assumem mais de um sentido no contexto


Num sentido amplo, neologismo designa qualquer palavra ou expressão recém-criadas, mas que não se incorporaram definitiva ou oficialmente ao léxico de uma língua. Nesse sentido, os vocábulos derivados e compostos (bem como os hibridismos, reduções, palavras-centauro, onomatopéias) foram neologismos em algum momento da evolução da língua. São palavras não dicionarizadas. A partir do momento em que uma palavra é registrada em dicionários consagrados, deixa de ser neologismo.

Os neologismos podem ter vida efêmera ou duradoura, ou seja, podem ser usados por algum tempo e caírem em desuso (caso, por exemplo, de elefantal e imexível, criados por um ex-ministro da República) ou passam a ser usados com maior freqüência por segmentos amplos da população (deletar, disponibilizar, priorizar etc.). Existem três tipos de neologismo: neologismo semântico - a palavra já existe, mas ganha um novo significado: rede (internet), laranja (intermediário em negócios ilícitos), zebra (resultado inesperado); neologismo lexical - uma nova palavra é criada, com um novo conceito: desinstalar (remover programa do computador), printar (imprimir), customizar (personalizar); neologismo sintático - construção sintática a partir de processos já existentes no idioma: não-violência, quase-irmão

O caráter polissêmico das palavras relaciona-se estreitamente a esse processo – é o chamado neologismo semântico. Nesse caso, tem-se o
adicionamento de novos sentidos a palavras há muito incorporadas ao léxico. Tome-se, como exemplo, esta série de expressões oriundas de uma paixão nacional, o futebol:

entrar de sola – agir de modo ríspido, tosco, violento.

pisar na bola – cometer uma gafe.

ir para a marca do pênalti – estar em perigo iminente, tomar decisão.
chutar para o alto – deixar de resolver um problema.

marcar um gol de placa – fazer algo bem-feito.

jogada – trama, acordo.

Atente, aliás, na profunda relação entre os neologismos semânticos e a derivação imprópria, já estudada.

VIII. Empréstimos lexicais
Ecoturismo
Os empréstimos lingüísticos devem-se ao contato entre os povos, às influências que as culturas exercem umas sobre as outras. O português, uma língua proveniente do latim vulgar introduzido na Península Ibérica alguns séculos antes de Cristo, ao longo de sua história tomou de empréstimo vocábulos gregos, celtas, germânicos, árabes, neolatinos (espanhol, italiano, francês). A partir da era das grandes navegações, enriqueceu-se também com o contato com línguas africanas, ameríndias e asiáticas, além das línguas modernas da Europa. Até meados do século XX, a grande influência foi francesa. Com a hegemonia norte-americana, sobretudo após a Segunda Guerra Mundial, a influência do inglês tornou-se avassaladora. Alguns estrangeirismos sofreram tradução literal, os chamados decalques, termo francês que significa cópia ou imitação, são palavras e expressões como supermercado (de supermarket), cartão de crédito (de credit card), cachorro-quente (de credit card), controle remoto (de remote control), estagflação (de stagflation), lua de mel (de honeymoon), alta fidelidade (de high fidelity) etc. 



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