quarta-feira, 24 de junho de 2020

Capítulo 02 - Estrutura e Formação de Palavras (Estrutura)

Capítulo 02. Estrutura e Formação das Palavras
1. Estrutura Mórfica

1.1. Análise mórfica das formas verbais

A estrutura das formas verbais é constituída por morfemas lexicais ou externos (radical, semantema ou lexema) e gramaticais ou internos (vogal temática, tema e desinências). Pode ainda apresentar afixos (prefixos e sufixos).
I. Radical

Também chamado de lexema ou semantema, é o núcleo significativo do verbo e ao qual se agregam os demais morfemas:

II. Vogal temática

Morfema que torna possível a ligação entre o radical e as desinências. Além disso, a vogal temática indica a que conjugação pertence um verbo:



III. Tema

É o radical acrescido da vogal temática:

IV. Desinências verbais
Indicam flexões de número e pessoa (desinências número-pessoais) e de tempo e modo (desinências modo-temporais). As flexões de voz e aspecto não são marcadas por desinências, pois o critério para se estabelecer essas flexões é sintático, semântico ou estilístico, e não morfológico:
Um certo texto publicitário contém, entre as dezenas de vocábulos, a palavra cabeceira, usada por Pedro Bial em “Aurélio: o livro de cabeceira dos livros” e pertencente à mesma família de outras, tais como:

Tais palavras descendem de um vocábulo em comum e formam uma família. São denominadas cognatas ou termos cognatos. Observe que, embora tenham em comum o vocábulo cabeça na sua origem, elas possuem significados relativamente distintos em função dos diferentes elementos acrescidos à palavra geratriz. Confronte cabeção / cabecinhas, encabeçar (“liderar”,”chefiar”) /escabeçar (“decapitar”).

Detenha-se, por exemplo, na palavra cabecinhas. Você pode depreender quatro “partes” na sua formação, cada qual com papéis e significados distintos:
cabec – é a base significativa do vocábulo e a partir da qual se criam as demais: cabeçada, cabeçote, desencabeçar etc.











Capítulo 02. Estrutura e Formação das Palavras
 - inh – indica uma variação de grau (diminutivo)
 - a – indica uma flexão de gênero (feminino)
 - s – indica uma flexão de número (plural)

Se você decompuser os termos cognatos, depreenderá outros morfemas:
Você observa claramente a existência, nessas palavras, de um morfema comum a todas e que as identifica como pertencentes à mesma família de cognatos. Esse morfema comum, cabeç-, é denominado radical.

Relendo a lista de cognatos acima, você observa que ao radical agregou-se uma série de outros morfemas, todos incapazes, porém, de se constituírem em matrizes para formação de novas palavras.

Em escabeçar, por exemplo, ao radical cabeç- adicionaram-se dois morfemas: es- e -ar. O morfema es- traduz a idéia de extirpação, extração, privação, ao passo que o morfema -ar nos leva a identificar escabeçar como um verbo da primeira conjugação. A esse tipo de morfema capaz de operar modificações semânticas no radical a que se agrega, dá-se o nome genérico de afixo. Colocado antes do radical, chama-se prefixo; depois do radical, sufixo.
Nos cognatos da lista anterior, você observa a presença de alguns prefixos (des-, en-, es-) e sufixos (-ada, -al, -alho, -ão, -ear, -eira, -eiro, -ote, -udo, -ar, -mento). Você pode constatar também que os prefixos e sufixos, além de alterações de significado, acarretam mudanças de classe gramatical, já que há verbos, substantivos e adjetivos entre os cognatos.
Como escabeçar é verbo, podemos flexioná-lo em número, pessoa, tempo e modo. Tais flexões são indicadas por morfemas denominados desinências verbais. É por meio delas que identificamos, por exemplo, escabeçavas e escabeçássemos como formas, respectivamente, de segunda pessoa singular do pretérito imperfeito do modo indicativo e de primeira pessoa do plural do pretérito imperfeito do modo subjuntivo. O morfema a chama-se vogal temática e possibilita a conexão entre o radical e as desinências, além de identificar o verbo como pertencente à primeira conjugação.




Tomemos agora, como exemplos, os vocábulos descabeçado e cabeçudinhas, que são dois adjetivos. No primeiro caso, acrescentaram-se os afixos des- e -ado ao radical. Em cabeçudinhas, porém, além do acréscimo de dois afixos (os sufixos -udo e -inh), ocorrem os morfemas - a - e - s, indicadores respectivamente das flexões de gênero e número, e que são chamados de desinências nominais.

Se você atentar nas oposições descabeçado / descabeçadas e cabeçudinha / cabeçudinhas, fica fácil concluir nesses casos que é significativa também a ausência do morfema - s, pois ela denota o número singular. Tal “ausência”é denominada morfema zero .

Considerando-se as oposições descabeçado / descabeçada e cabeçudinhos / cabeçudinhas, você constata a mais comum das oposições de gênero em português: o morfema o para o gênero masculino e o morfema a para o gênero feminino.

Decompondo-se os vocábulos descabeçado e cabeçudinhas, depreendem-se os seguintes morfemas:

Você provavelmente percebeu um fato interessante na formação das palavras-exemplo: nelas os afixos, de certo modo, neutralizam-se mutuamente. Em descabeçado, o prefixo des- significa privação, negação, ao passo que o sufixo -ado tem o sentido de provido, cheio de. Já em cabeçudinhas, enquanto o sufixo ,b>-udo(a) traduz uma idéia de desproporção (afinal, cabeçudo é o que tem a cabeça desproporcionalmente grande), o sufixo -inho(a) é diminutivo – uma prova das infinitas possibilidades e nuanças da língua portuguesa.







2.Formação de Palavras
Há dois processos básicos por meio dos quais se criam novos vocábulos: a derivação e a composição. A derivação, geradora de vocábulos ditos derivados, implica alguma forma de alteração numa única palavra primitiva, seja por acréscimo de fonema (gota – gotícula, gotejar), seja por supressão de fonema (combater – combate, chorar – choro), seja por mudança de (ou na) classe gramatical e de (ou no) sentido (alto – alto, Xerox – xérox, xerox). A composição, da qual resultam vocábulos compostos, consiste da junção de dois ou mais vocábulos (burocracia, otorrinolaringologista, psiquiatria, amor-perfeito, arranha-céu, planalto etc.).
Estudaremos, a seguir, esses dois processos básicos de modo mais minucioso. Depois veremos outras formas de enriquecimento do léxico.

2.1. Derivação

I. Derivação prefixal (ou prefixação)
Ocorre com o acréscimo de prefixo ao radical. Exemplos:

Capítulo 02. Estrutura e Formação das Palavras
Note que num mesmo derivado pode haver mais de um prefixo. Tal é o caso, por exemplo, de desencabeçar, desencaminhar, desinfeliz, desinquieto. A tradição gramatical considera que o adicionamento de prefixo não implica mudança de classe da palavra primitiva modificada por ele. Entretanto, existem casos de substantivos que se empregam como adjetivos e vice-versa. É o que ocorre com jogos interclasses e países não-alinhados, por exemplo, já que interclasses é substantivo usado como adjetivo e não-alinhados é adjetivo que atua como substantivo em outros contextos (os não-alinhados). Seguindo a linha de raciocínio, se desonesto é antônimo de honesto, e desatento é antônimo de atento, desinfeliz é sinônimo de infeliz, desinquieto é sinônimo de inquieto, no primeiro o prefixo 'des' tem valor negativo e o no segundo, tem valor reforçativo.

II. Derivação sufixal (ou sufixação)

Ocorre com o acréscimo de sufixo ao radical, o que acarreta alteração semântica e/ou mudança de classe da palavra primitiva. É o caso, por exemplo, do substantivo felicidade e do advérbio felizmente, derivados do adjetivo feliz. É o caso também do neologismo disponibilizar, verbo proveniente do adjetivo disponível, que tem sua origem no verbo pôr (ponere) acrescido do prefixo dis-.
Na exemplificação abaixo, atente nas palavras primitivas, a fim de constatar alterações semânticas e morfológicas.



III. Derivação prefixal e sufixal
Como você pôde constatar, há vocábulos derivados formados pelo acréscimo de prefixo e de sufixo. É o que acontece, por exemplo, com infelizmente (in + feliz + mente) e configuração (con + figurar + ção).

IV. Derivação parassintética (ou parassíntese)

Diz-se que um vocábulo é derivado parassintético quando o prefixo e o sufixo se agregam concomitantemente à palavra primitiva. Este caso não pode ser confundido com o anterior, já que um derivado parassintético não subsiste à retirada de um dos afixos, ao contrário de um derivado formado por derivação prefixal e sufixal sucessivas. Observe, nos exemplos anteriores, que os substantivos e adjetivos feliz e figura originam, respectivamente, infeliz, felizmenteinfelizmente, e figuraçãoconfigurar, configuração. Já em parassintéticos como amanhecer e enveredar, a supressão de algum afixo resulta em palavras que não existem: “amanhe”, “manhecer”, “envereda”, “veredar”. Configuração provém de figuração, configurar, por sua vez, provém de figura. Nesse caso, os afixos foram acoplados em sequência, o acréscimo não é simultâneo. Se um deles for retirado, a palavra não perde o sentido. O mesmo não se deve dizer de palavras como amanhecer, que não provém de manhecer nem de amanhe, pois essas palavras não existem. Logo, amanhecer provém diretamente de manhã, pelo acréscimo concomitante de prefixo e sufixo. Se um deles for retirado, a palavra perde o sentido.
A derivação parassintética é geradora de verbos a partir de substantivos (atraiçoar, apedrejar, apreçar, entardecer, anoitecer, ensarrilhar, expatriar) ou de adjetivos (engordar, emagrecer, amarelecer, amolecer, reverdecer, enturmar, empalidecer). Normalmente, forma verbos. Há alguns adjetivos formados por derivação parassintética (desalmado, subterrâneo, conterrâneo, avermelhado, acebolado). Submarino não é parassintética, mas sim prefixal, porque vem de marino, forma antiga de marinho.

V. Derivação regressiva
(ou deverbal)
A supressão de um segmento final da palavra primitiva resulta numa redução denominada regressiva, também chamada deverbal (ou pós-verbal), uma vez que a derivada é substantivo proveniente de verbo. Os


substantivos deverbais são criados com a substituição da terminação verbal por uma das três vogais temáticas nominais (-a, -e, -o):


Observe que os substantivos deverbais são sempre abstratos e nomeiam ações. Assim, ajudaataque e estudo nomeiam, respectivamente, o ato de ajudaratacar e estudar. O mesmo não ocorre, por exemplo, com âncora, perfume e arquivo, que são substantivos concretos e palavras primitivas em relação a ancorar, perfumar e arquivar, verbos resultantes de derivação sufixal. Desse modo, substantivos abstratos e denotadores de ação são derivados de verbos, ao passo que substantivos concretos são primitivos e os verbos que a eles se relacionam são derivados.

VI. Derivação imprópria (ou conversão)
Resulta, normalmente, da mudança de classe e sentido da palavra primitiva, sem que a ela se acrescente ou dela se subtraia fonema. Por isso a derivação é chamada imprópria. Exemplos:
Devemos ressaltar que tais exemplos não são propriamente casos de derivação (daí o nome), já que não supõem alterações mórficas, senão semânticas e estilísticas. Ademais, nem sempre a derivação imprópria resulta de mudança de classe e sentido, mas de conversões dentro de uma

mesma classe. É o caso, por exemplo, de substantivos comuns que se transformam em próprios:

Ou de certas marcas registradas (substantivos próprios) que, em dada época ou região, se consagram no mercado e se convertem em substantivos comuns:


2.2. Composição

I. Composição por justaposição
Resulta da aproximação de duas ou mais palavras primitivas que se justapõem, ou seja, colocam-se lado a lado, sem que haja alteração fônica em qualquer dos elementos formadores:


















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